quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Lá vai ela...

Lá está ela, sentada no banco da praça. Olhos no chão, a ponta dos dedos brincando com a velha pulseirinha de figuras japonesas. Relembra cada passo de sua trajetória, repassa sua história na cabeça latejante, algumas palavras insistem em permanecer. Lá vai ela! Passos largos, gestos breves e um sorriso, aparentemente, doce. Ela se esforça, ergue a fronte, ensaia uma escusa, ensaia uma esquiva mas, seus olhos ainda úmidos denunciam a mágoa dorida que carrega.
Ela não consegue ouvir o que eles conversam, está distante, mas de longe vislumbra os sorrisos, ou seriam risos? Ela não consegue ouvir a conversa, ela não quer ouvir. Hoje pela manhã ela acordou com o coração estranhamente descompassado. Ela sabe que aperto no peito é sinônimo de notícia ruim a caminho, é prenúncio de desalento. Ela queria não saber, queria não ouvir seu coração batendo travado, mas disso ela não pode fugir.
Por fim, aqui está ela novamente, com o sonho extirpado precocemente, palavras duras em voz de veludo e tudo muda, sonhar só não dá nada. Ela viu os sinais mas, recusou-se a acreditar, teimou em não perceber o início do engodo. Agora ela entendia as conversas sussurradas, os encontros sem convite, a alegria não compartilhada, ela ficara de fora da festa. O que ela não entendia era o porquê de todos saberem de seu desterro e ela ser a última a saber. E ela continua sem entender, afinal, ainda nada foi dito, ela não sabe se é coragem que falta ou se é desprezo que sobra. Enfim, ela caiu em si.
E a tristeza, com a qual ela duelou bravamente, contra a qual ela investiu com violência, irrompe alma adentro, instala-se e parece não ter pressa em partir. Lá vai ela! Olhos no chão, sorriso docemente melancólico, e um nó na garganta, cantando “descansa coração e bate em paz...”

Um comentário:

Pétrig disse...

Adorei, um pouco de Caio Fernando Abreu, de Lya Luft, de Clarisse lispector, e muito muito de Sibila...
lindo mulher.

Férias

Feridas feias do mundo têm nas suas faces facas de homem. Feriados felizes em casa têm nas suas façanhas foiçes de mulher. Fechados, os Fa...