terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O velho e o moço

Eu sou o velho e o moço numa só alma. O velho já se cansou das antigas feridas, dos recalques insistentes, dos hábitos arcaicos. O velho já não confere aos seus fantasmas o direito de permanecer. Nas andanças da vida aprendi que na velhice a águia esmigalha o próprio bico envergado para sobreviver. Sei que muitos dirão que é um exagero utilizar tal metáfora mas, eu também quebrei o velho bico que me impedia de comer cada pedaço de vida que me era oferecido.

O velho em mim permanece numa mesa de bar, numa roda de samba, numa prosa animada. O velho em mim ainda vive mas já não carrega a melancolia de outrora, em seu lugar traz boas gargalhadas, cantarola novas e antigas canções. Coabita com o velho, no mesmo corpo, o moço. A mocidade que caminha com malícia, com malemolência. Meus olhos, antes opacos e distantes, hoje são olhos de corça, sempre à espreita da presa. Esses dois seres dentro de mim coexistem num infindável duelo, um quer fazer valer a experiência e por isso não se atira e o outro rebela-se contra o marasmo e debocha do medo do companheiro.

Tudo o que sei é que desse duelo não sairá vencedor pois eu preciso dos dois, um não me deixa esquecer meus caminhos e todas as veredas em que me perdi e o outro me permite perder-me outras vezes mais...

“Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo...”

3 comentários:

be disse...

mas e o bom da vida é que a cada dia se envelhece, mas hoje eu ainda sou mais novo?

a graça da vida é ela passar...

Pétrig disse...

O que é feito de você
Ó minha mocidade
Ó minha força,
A minha vivacidade?
O que é feito dos meus versos
E do meu violão?
Troquei-os sem sentir
Por um simples bastão
E hoje quando eu passo
A gurizada pasma
Horrorizada como quem
Vê um fantasma
E um esqueleto humano assim vai
Cambaleando quase cai, não cai

Pés inchados, passos em falso
O olhar embaçado
Nenhum amigo ao meu lado
Não há por mim compaixão
A tudo vou assistindo
A ingratidão resistindo
Só sinto falta dos meus versos
Da mocidade e do meu violão.

Patrícia disse...

Ai Pedrinho deu uma dor com essa última estrofe!!!!

Férias

Feridas feias do mundo têm nas suas faces facas de homem. Feriados felizes em casa têm nas suas façanhas foiçes de mulher. Fechados, os Fa...